Parábola da Autarquia (in Portuguese)

– Ora bem, meus caros, a situação é a seguinte: o jardim está algo pobre e temos dinheiro para canteiros novos. Gostaria de saber se os senhores concordam em que gastemos esta parte do orçamento na compra, instalação e manutenção de canteiros de flores no jardim da rua de baixo.

 

– Canteiros novos? Ficam bonitos, mas já se sabe que as senhoras com os cãozinhos estragam tudo, vão logo para lá cheirar e fuçar com as patas, vão destruir aquilo tudo num instante.

 

– Então acha má ideia?

 

– Eu acho boa, só que acho que vai ser tudo destruído, e depois os rapazes que andam ali à noite com a passa e tal, e depois pregam fogo e sujam as paredes todas, não vê? Tudo grafitado, uma pouca vergonha. Isto era preciso era polícia e multas quando fossem apanhados a estragar. Mas multas à seria de duzentos contos para cima.

 

– Então está-me a dizer que prefere que não se invista dinheiro nos canteiros é isso?

 

– Já viu que devíamos se calhar alcatroar a estrada. Está cheia de buracos.

 

– Mas o orçamento para a estrada já foi debatido na reunião anterior. Eu gostaria de saber é se sempre plantamos os canteiros. Acha boa ideia ou má ideia plantar os canteiros?

 

– Acho bem, mas é dinheiro deitado à rua. Não vão durar tempo nenhum, vai ficar tudo estragado que esta gente não sabe dar valor a nada.

 

– Então que sugere que se faça, visto que não mandamos na polícia nem poderemos controlar o valor das multas?

 

– Eu não sugiro nada, acho que é dinheiro deitado à rua.

 

– Então acha que não se devem construir os canteiros, mas não tem alternativa? Então acha que está tudo bem consoante está agora?

 

– Eu não. Acho que agora está tudo mal. A estrada com buracos, as paredes sujas e o jardim uma miséria.

 

– Então, pronto, sempre concorda que deveríamos melhorar o jardim?

 

– O jardim ia ficar mais bonito, mas já sabe que vão estragar tudo, é dinheiro deitado à rua.

 

– Mau!… O senhor não é capaz de se decidir. Então diga-me lá, se só tem críticas a fazer, tem alguma proposta concreta? O que o senhor faz com o dinheiro que dispomos então?

 

– Nada, não faço nada que esta gente não dá valor nenhum a nada. Guarde-o para a próxima legislatura.

 

– Mas…mas… então isso significa que está satisfeito com a situação actual? Acha que não precisamos de melhoramentos?

 

– Nem diga uma coisa desses, não ouviu o que lhe acabei de dizer? Está tudo mal, o jardim uma miséria e estrada por alcatroar, as paredes sujas. É uma lástima, uma incompetência.

 

– Sim, já ouvi, já mo disse mais do que uma vez, então o que sugere que se faça?

 

– Já para não falar da boca de incêndio que foi roubada e arrancada no outro dia. Só o dinheirão que isso não foi, e nunca se soube quem a tirou nem a mando de quem. Isto é tudo uma trúpia, uma cambada que não sabe o que há-de fazer e estragam tudo, não querem saber de nada…

 

– Percebo, percebo, mas…. a questão era os canteiros…

 

– Mas vomecê não se cala com os canteiros quando a junta tem tantos problemas? Olhe, vou mas é para casa que esta discussão já me pôs mal disposto e aqui estou a ver que não se faz nada. Falaremos melhor noutra altura.

 

 

Aprender a desler (in Portuguese)

Vasco andava deprimido com a vida. Subia-lhe uma crise existencial pelo esófago acima quando sentia que já não tinha lugar no mundo. As suas extensas habilitações literárias, todo um percurso imerso nos clássicos, nos banquetes, simpósios, repúblicas tinham-no tornado um ser acre e inane no plano social, a ponto de ninguém perceber os seus excelsos retóricos e os seus labirínticos raciocínios. Por outro lado, a sua ínclita perfeição desmesurava-se em torná-lo um frangalho quando julgava os seus próprios trabalhos. E então enegrecia-se-lhe o ânimo cuidando que jamais faria algo de bom nesta vida, seria um desperdício cada dia que corria, mais próxima a morte e em redor apenas o deserto povoado pela sua ilusão de incompetência.

Que não haja dúvidas que Vasco se quedava numa pura crise existencial ilusória: apenas uma visão distorcida do seu ego lhe permitia ver má qualidade nas coisas mais puras que escrevia e realizava. As suas obras seriam a roçar o genial caso alguma vez alguém tropeçasse nelas, porém queria o destino, qual uma maldição vangoguiana, que tal não fosse perceptível na sua errante existência. Assim, o pobre rapaz arrastava-se ruas fora, cabisbaixo, atacadores em desalinho, braços pendentes achando que tudo era abstruso e nada disto faria sentido.

Até ao feliz momento em que o mesmo desalinhado atacador se enlaçou na sola e Vasco, tropeçando, esbracejou para evitar a queda, ergueu os olhos e o coração ao alto e reparou que estava diante de uma nova escola, na qual nunca houvera reparado, no bairro. Podia ler-se “escola de analbafetização para mestres e doutores desiludidos: recupere o júbilo da inocência”. E foi uma epifania a percorrer-lhe o sangue. Matriculou-se e num ápice era vê-lo todo animado a frequentar as aulas de analfabetização. Primeiro começou por ter de esquecer tudo o que sabia – começar a disjuntar palavras quilométricas, uma raiva voraz até o otorrinolaringologista e o electrodoméstico não fazerem mais sentido. E aos poucos as sílabas foram-se apartando, e as fontes perdendo relevo, e as letras começaram a nascer por elas próprias. Cada uma como um mero objecto gráfico, estético, de contemplação mas vazio de sentido. Quando Vasco terminou o curso, e recebeu o seu lindo diploma, desenhado com flores e casinhas, com as janelas presas aos cantos, sentiu que tinha recuperado a sua vida.

Aquela maldição, as palavras, o saber conjugá-las e trazer-lhes sentido, a língua, a forma imaterial como se constrói a lógica do nosso cérebro e condiciona a maneira como apreendemos o mundo para sempre, já não era para sempre. Vasco aprendeu a desler, e isso era tão importante nesta fase da vida como tudo o resto. Aprendeu a vida dos simples, a inocência de quem nunca se preocupou porque não tem consciência que há coisas para se preocupar, aprendeu a não ter medo porque não tem noção que há coisas das quais se pode ter medo.

É vê-lo hoje pelas ruas, de rabo alçado e peito para fora, cabeça erguida a olhar os toldos, os cartazes e a pasmar com os rebicoques dos desenhos, de repente era como se toda a China, ou até Marte tivessem vindo visitar a cidade. A cidade, essa, continuava a mesma, apenas a maneira como era olhada e interpretada tinha mudado radicalmente. E isso bastava para agora ser feliz, para sentir que não era mais um incompetente, porque, na realidade, já não tinha competência sequer para fazer um escrito mal feito. Já não interessava deixar obra feita porque já não saberia como a fazer, e assim ficou livre e num permanente estado estético, um estado de eterno deslumbramento sobre todas as coisas que aparecem à frente, uma voracidade perante cores e odores, perante texturas, perante todas aquelas coisas que os nossos sentidos podem percepcionar mas que estavam negligenciadas, ofuscadas pelas que tantos anos andou a ler. A atenção, o ponto de foco houvera mudado, e era como se tivesse voltado a ser criança. Sem preocupações, apenas a de ver, sentir, viver, viver, viver…

O quarto 403 (in Portuguese)

O Prof. Pimenta deslocava-se nessa semana a uma conferência por terras distantes do nosso país, bem encaixadas a Norte. O certame prometia e ele ia entusiasmado ensaiando a sua apresentação, no comboio, ora vagueando pelos corredores, ora frente ao espelho da minúscula casa de banho, ora contra o vidro que espalhava a paisagem contra o vento.

Chegou ao seu destino, já de noite, e enfiou-se de malas e bagagens num táxi rumo ao seu luxuriante hotel: houvera escolhido na internet o melhor da cidade, uma torre de quatro estrelas com piano bar panorâmico. Foi muito bem recebido pelo pessoal que lhe desejou uma boa noite e lhe forneceu as chaves do quarto 403, não fumadores.

O Prof. Pimenta apressou-se para o elevador e lá foi cantarolando de chapéu na mão e a arrancar o cachecol do pescoço. Enfiou o cartão na ranhura e o quarto abriu-se em todo o seu esplendor para desvelar uma enorme cama onde se iria afundar e perder em lençóis alvos e catadupas de fofas almofadas, um espelho a todo o comprido, janelas, duas delas, com vistas para o verde, um cadeirão e uma mesa com aperitivos, uma secretária para o seu computador com respectiva tomada de internet e candeeiro, um frigorífico e mini-bar, e um plasma de fazer qualquer sala corar de inveja. Armários e cofre electrónico. O Prof. sorriu muito contente, retirou o casaco, pousou a mala e espraiou-se na cama a ver as notícias, enquanto retirava alguns amendoins.

Passados cinco minutos achou que estaria talvez quente demais. Apesar do aquecimento estar ligado devido ao rigor da temperatura exterior, o bafo incomodava-o e não era possível abrir as janelas. Assim, não teve outro remédio que não ligar um pouco o ar condicionado. Um verdadeiro desperdício energético, pensou, ter um aquecimento que não controlava e ter de o arrefecer com outro. Disparates. Foi nessa altura que pensou em refrescar-se e verter umas águas. Dirigiu-se à casa de banho, que, por acaso, nem se tinha lembrado de inspeccionar à procura das famosas amostras de champô.

E é neste momento que ocorre o inusitado, quando se levanta e não percebe onde se dirigir. Porque não há porta. Olha à sua volta, no seu majestoso quarto e repara que não tem sítio para onde ir, a não ser para o hall. Mas seria isto possível? Vai, calcorreia os armários e nada. Procura cada canto, mas da casa de banho nem sinal. Ora que esta!… Coça a cabeça uma ou duas vezes e pensa que nada disto faz sentido. Em pensões baratas, efectivamente, a casa de banho é partilhada e fica ao fundo do corredor mas num hotel de luxo espera-se que cada quarto tenha uma incluída, é o mínimo. Já vagamente incomodado resolve sair do quarto e procurar a casa de banho.

Para seu magnificente espanto dá-se conta de um corredor com várias portas de quartos, mas nenhuma porta que dê a indicação de ser uma casa de banho partilhada. 407, 408, 409… os elevadores, um pequeno hall com janelas e cadeirões, o sinal de piso de não fumadores, a porta do staff, as escadas, mas nada de casa de banho. Já muito intrigado resolve apanhar o elevador e dirigir-se à entrada.

Quando chega ao piso 0, atenta na passagem para a sala do pequeno-almoço, atenta no lobby e vê de facto uma casa de banho, na qual entra e se refresca. Mas é uma casa de banho tipicamente pública: com urinóis, lavatórios, mas nada de banheiras ou bidés, e muito menos amostras de champô, como seria de esperar encontrar nos seus recatados aposentos. Já quase a galope, dirige-se para a recepção indagar o que se passaria.

Na recepção a estupefacção é geral. Mas como falta a casa de banho? Ela sempre lá esteve, nunca um hóspede reclamou e o quarto já fora tantas vezes utilizado. Todos os quartos, aliás dispõem de casa de banho, com banheira, bidé, secador, toalhas e amostras, tal como constam nas brochuras que lhe mostram. Mas o prof. Pimenta insiste que está na brochura, mas nada daquilo existe no seu quarto. E exige que o acompanhem. Muito contrariado o recepcionista sobe acompanhando o professor.

Quando entram ambos no quarto, o recepcionista dirige-se calmamente para uma parede em frente ao armário e fica especado a olhar para ela. Com ar completamente descompassado, desfaz-se em desculpas e garante não perceber como não está ali a porta, que sempre esteve ali, que a entrada de todas as casas de banho do hotel são no pequeno corredor de acesso ao quarto, em frente ao armário da roupa. Mas da porta nem sinal, apenas parede maciça. O recepcionista muito confuso, sai, e bate na porta ao lado. Um senhor estremunhado aparece e o recepcionista desfazendo-se em desculpas olha para dentro do quarto e, de imediato, vê a casa de banho onde deveria estar e aponta-a ao Prof. Pimenta, garantindo-lhe que aquela é a configuração usual de todos os quartos daquele piso e que também o seu deveria ter uma casa de banho.

Muito intrigados chamam o gerente, ao qual, outros empregados se juntam todos muito confusos e embasbacados a olhar para o quarto do Prof. Pimenta e para uma parede vazia. A senhora da limpeza diz que não entende, que ainda no dia anterior ali tinha estado e poderia jurar que limpou a casa de banho que garantia existir ali, que sempre houve uma, e que até se lembra que a hóspede anterior tinha deixado no bidé umas cuecas de renda, por esquecimento decerto.

A noite ia-se prolongando por entre muitas cabeças acenadas, muitos ombros encolhidos e já o gerente tinha requisitado as plantas do hotel, onde toda a gente poderia verificar que efectivamente uma casa de banho existia naquele local, na parede em frente do armário. O prof. Pimenta começava a ficar seriamente cansado, e preocupado com a sua conferência no dia seguinte, muito cedo, e o pior é que o hotel estava completamente lotado e não haveria maneira de lhe atribuir outro quarto. Assim, com um enorme pedido de desculpas, o prof. Pimenta limitou-se a fazer as suas necessidades na casa de banho comum e logo se haveria de pensar numa solução pela manhã, após o repouso.

Nessa noite o prof. Pimenta dormiu bem. A cama era enorme e confortável. E tinha tomado um ansiolítico para prevenir qualquer assomo de inquietação que lhe pudesse perturbar o sono. Quando raiaram as sete horas e a luz matinal invadiu o quarto já o prof. Pimenta se espreguiçava como novo em frente às janelas que davam para o cenário verdejante. Fez uns quantos movimentos com o corpo para desentorpecer os ossos e achou que teria de se lavar antes de descer para o pequeno almoço que o aguardaria. Por essa altura voltou a assomar à sua memória o episódio do dia anterior. No entanto, hoje não era ontem. E hoje estava mais lúcido. Assim pensou na velha frase de Sherlock Holmes que dizia que quando todas as hipóteses plausíveis falham, a mais inverosímil, por muito disparatada que seja, deve ser a verdadeira. Assim sendo, se as plantas do hotel diziam que havia casa de banho, se a empregada a houvera limpo no dia anterior, se se sabia que havia ali uma casa de banho… ela tinha de haver e pronto.

E assim, foi um muito confiante Prof. Pimenta que, com toda a convicção, se colocou em frente ao armário, fitou a parede diante de si e para ela avançou com toda a determinação do mundo.

Não doeu nada. E o mundo não desabou. Como esperado, a parede desmaterializou-se magicamente e o prof. deu por si diante de um resplandecente lavatório, banheira, bidé, secador, muitas toalhas e as famosas amostras de champô. Encolheu os ombros, sorriu muito e pensou que afinal a lógica continua a ser uma coisa que ainda faz muito sentido.

O Homem imaterial ou a libertação digital (in Portuguese)

Sempre fora um especulador e jogador compulsivo. As artimanhas no mundo da matéria virtual tinham-lhe rendido milhões, muitos milhões, que recheavam contas bancárias um pouco por toda a parte. Hoje em dia, apenas com um dispositivo digital, instalado em qualquer lado, e com uns minutos diários de ordens, mantinha o capital a circular algures nas redes e a gerar mais capital. E era tudo o que precisava para do capital gerar material. Cartões de débito e crédito doirados atestavam o seu poder no mundo real, material, e conseguiam-lhe tudo o que queria. Tanto assim era que quando completou quarenta anos, tendo um património considerável começou a fartar-se e a achar tudo dispensável. A materialidade já nada lhe dizia, apenas o que se poderia fazer com ela. Sozinho no mundo, nunca casara, nunca estabilizara, nunca tivera paz. Procurou a paz da maneira que sabia, livrando-se de tudo quanto era material, sem de nada se livrar. Vendeu todas as suas posses. Converteu tudo o que era perecível em digital. E sentiu-se dono do seu destino com apenas as roupas do corpo e os documentos e cartões que atestavam a sua identidade física e estabeleciam o contacto entre o seu mundo corpóreo e o conceito de sujeito que a sociedade tinha de si. Apenas essas ligações, esses prolongamentos eram os necessários para se sustentar.

Quando saiu do notário sentiu-se livre. Sabia que era um homem novo. Um homem sem rosto, nem posses físicas. Mas com todas as que quisesse. E assim foi. Sem fazer qualquer mala que já não tinha dirigiu-se ao aeroporto e foi para Paris. A fome que o assolava era consolada com o que via. Mal chegou dirigiu-se a um restaurante caríssimo, com vista sobre o Sena e pediu o que lhe apeteceu sem se preocupar com o assunto. Comeu e bebeu quanto pôde, a olhar o rio e os pássaros. Pensou na vida e sentiu a brisa da noite no rosto. Era o cheiro da despreocupação. No final passou o seu cartão e saiu de cena. Caminhou tanto quanto aguentou, indo pelas ruas que mais lhe apraziam e vendo as luzes que o fascinavam. Quando se fartou, chamou um táxi e pediu para ir para os Campos Elísios e o melhor hotel que lá houvesse.

Chegou e deslumbrou-se com a avenida cheia de gente e luzes. Abeirou-se do que melhor lhe pareceu e entrou. Pediu uma suite e ascendeu aos céus. Lá, deleitou-se com a televisão enquanto lhe apeteceu. Depois adormeceu e teve sonhos tranquilos.

Acordou assarapantado com o sol a dar-lhe na cara. Pediu o serviço de quartos e um pequeno almoço monumental na varanda. Respirou o ar da manhã com torradas com compota, café com leite, sumo de laranja, croissants vários. Após uma breve higiene desceu. Pagou e saiu.

Conforme descia a avenida via as montras. Entrou numa loja onde um fato lhe chamou a atenção. Vestir a mesma roupa após o banho fora um mal necessário mas mais não. Não tinha armários nem precisava. Tocou à campainha e divertiu-se a experimentar um pouco de tudo. Desde roupa interior, a fato completo, a gravata e sapatos, vestiu-se dos pés à cabeça largando a roupa antiga pelo caminho. Quando lhe pareceu bem comprou o jornal e sentou-se num banco de jardim a ler. Passado um bocado decidiu que lhe apetecia ir ver a Mona Lisa. Apanhou um táxi e passeou-se até ao Louvre onde ficou o tempo que lhe apeteceu. Depois disso haveria de decidir que queria ir almoçar a Versailles, mas decidiu que queria gente. Então desta vez foi de transportes públicos como as pessoas. E ainda meteu conversa com uma senhora que julgou conhecê-lo de um Verão passado, que jurava que teriam sido vizinhos de toldo. Claro que era equívoco, mas sempre deu uma conversa banal interessantíssima, de um nível a que já não estava acostumado.

Repastou faustosamente em Versailles, entrou numa pequena livraria, encontrou uns pensamentos de Deleuze e resolveu levá-los consigo para se passear pelo palácio. Vagabundeou por onde quis apreciando os quartos, os ornamentos, os jardins. Pousou umas horas nos jardins a ler o livro que adquirira. Quanto achou que já chegava deixou o livro pousado e partiu. Poderia sempre comprar outro exemplar no futuro para o terminar de ler. Decidiu ir apanhar o comboio para Londres onde iria jantar.

Chegou a Londres já de noite, numa viagem onde meteu conversa com uma rapariga que lhe pareceu sozinha e interessante. Afinal era uma empresária em viagem de negócios. Divorciada. As viagens de negócios eram um mal necessário (como ele sabia!), e poderiam ser muito solitárias. Tinha reunião logo de manhãzinha e decidiu que viria no dia anterior. Patati-patata, deram por ambos a jantar num restaurante junto a Trafalgar Square e adiantando uma conversa interminável. No final parecia que já se conheciam há anos. Ele pagou a conta, e ofereceu-lhe uma rosa, comprada a um vendilhão contente que passara. Ela fascinada levou-o para o seu hotel onde amoraram imenso antes de adormecerem nos braços um do outro.

Quando o sol lhe bateu na cara, já ela tinha partido para a reunião, deixando um bilhete onde lhe desejava um fantástico dia e o seu cartão de contacto. O homem acordou, tomou o pequeno almoço, e decidiu requisitar o computador com internet. De lá aproveitou para mandar umas quantas ordens e pôr-se em dia no mundo virtual. Ao fim de uma hora tinha garantido a circulação de mais uns quantos milhões, o cartaz de espectáculos da cidade e as melhores marcas de roupa. Lavou-se e saiu para comprar um fato novo. Quando a sua nova amiga presumivelmente se despachou da reunião, pediu um telefone e ligou-lhe para o telemóvel que vinha no cartão. Combinou almoço com ela e ir ver um espectáculo de Jazz.

Ao fim da tarde, ela regressaria a Paris, ele por sua vez, ficaria em Londres mais três dias, passeando-se, comprando outro exemplar do livro que lera em Versailles, e não ficaria confuso por ler o final numa tradução deplorável para língua de sua majestade. Deixaria dois fatos como legado a diversos vagabundos, conheceria mais meia dúzia de restaurantes, uns quantos museus e galerias de arte e uma casa de jogos.

Na casa de jogos, haveria de perder dez mil libras a jogar bilhar para um escocês magrinho e fumador de nome O’Hara, com quem teve conversas monumentais sobre a vida, os campos, as mulheres e a infância. Ofereceu-lhe mais dez mil libras para o levar a visitar o castelo que rodeava os campos onde este nascera e donde tão mirabolantes e fascinantes histórias surgiam. O’Hara aceitou e partiram. De comboio. Vagueou uma semana pela Escócia, conhecendo terras, castelos, lendas. Parando em restaurantes e pousadas duvidosas mas que muito o aprouveram dado o kitsch que evocavam. Conheceu gente, nomeadamente duas amigas de infância de O’Hara muito atiradiças e que lhe deram muito amor, após ele lhes ter oferecido roupa nova e várias jóias.

Uma manhãzinha desapareceu. O’Hara e as amigas bem clamaram por ele, mas apenas o vento lhes respondeu. O homem estava numa elevação sentindo um vento forte na cara e vendo o mar ao longe. Pensava na vida, e na paz que o campo lhe trazia. Tinha um velho livro na mão, que encontrara num alfarrabista, com histórias e lendas tradicionais. E sentiu muita paz. Por esta altura até trajava um Kilt e tinha-se despojado dos fatos. Viveu mais duas semanas por cabanas rurais escocesas, comendo onde calhava, conhecendo quem lhe aparecia à frente, fazendo festas às ovelhas e apanhando com chuva miudinha na cara. Para todos os efeitos estava sempre de férias e era um turista muito simpático que ficava no coração de todas as pessoas. E todos gostamos de receber um turista endinheirado e mostrar-lhe as melhores coisas da nossa terra.

Dali saltou para Nova Iorque, para o bulício. As duas semanas de pasmaceira Escocesa tê-lo-iam começado a entediar. Em Nova Iorque conheceu mulheres mil, foi a festas fantásticas e barulhentas, viu musicais com actores e cantores de talento incrível, arte moderna, comeu em restaurantes panorâmicos coisas com nomes inenarráveis servidas em porções diminutas em pratos alvos enormes. Quando se fartou do barulho da cidade, perdeu-se na neve do Ontário, onde andou à caça aos Ursos, sem nunca o conseguir. Quando se fartou da neve, enterrou os dedos na areia escaldante de Cabo Verde. Fez um filho que nunca haveria de conhecer com uma mulata simpática da ilha do Fogo, antes de ir apanhar uma bebedeira monumental no Carnaval do Rio. Passou duas semanas no meio das filmagens de um filme de Bollywood. E alugou um autocarro que pintou de cor-de-rosa para conhecer o deserto Australiano.

Hoje em dia ninguém sabe onde anda o homem imaterial. Apenas se sabe que é muito feliz porque faz o que quer, quando quer. Conhece quem quer e quem não quer, e é virtualmente incontactável a não ser que ele próprio tome a iniciativa. De quando em vez, entra no mundo digital para enviar umas ordens e manter a imaterialidade a circular. Que por sua vez gera a materialidade necessária para ele se manter à face da terra como quer. No outro dia, deixou um vestígio mais palpável: publicou um ebook sobre Liberdade e Felicidade, onde atesta que apesar de todas as coisas ilusórias do mundo, há uma que continua a ser o seu calcanhar de Aquiles: os laços emocionais que, no fundo, fazem dele Homo Sapiens Sapiens. E por muito que se tenha desprendido, por muito que tudo circule, a sensação de lar, a sensação de ter alguém que o espere, que lhe dê carinho genuíno, que lhe pergunte pelas notas da escola, que lhe ralhe, a sensação de ter algo e alguém onde voltar, é aquilo que sente mais saudades. E aquilo que o mantém num eterno limbo de saber se se vai manter assim para sempre, na liberdade digital, ou se um dia ainda vai voltar à terra dos comuns mortais, a ter uma posse que seja, algures, com alguém; a não ser um eterno turista, a ser um cidadão.

Breve conto de autor muito pouco ilustre, revisto e comentado por editor ainda menos ilustre e sobrecomentado por Filósofo ilustre (in Portuguese)

― Sem título ―

O rapaz[1] vinha pela rua abaixo. Estacou junto ao cruzamento, ajeitando a malha da camisola[2]. Nessa altura passou a D. Alzira[3] que o cumprimentou:
― Saúde! Então, menino, onde vais? Ainda agora passei pela tua tia[4], ali junto ao poço[5].
― Sebença[6]! Vou até ao rio[7].
― Ah, o rio! Frondoso, frívolo, frenético[8]. Ainda por te lá matas, meu menino[9].
― O Julinho[10] pancou-se[11] lá anteontem.
― Oh, não me diga[12]! Cadeu-se[13]!…

[1] O autor não identifica o rapaz, o que quanto ao Dr. Carvalho Pessanha (1993, p. 42) significa que «é uma intenção pessoal de desviar timidamente as atenções da sua interposta pessoa, ocultando a faceta auto-biográfica». Isto leva-nos a crer que o rapaz seria o próprio autor do texto.

[2] Nesta altura era bastante vulgar o uso de camisolas de malha nos dias mais frios do ano (Lovejoy, 1990, pp. 124-8). Isto poder-nos-ia levar a crer que a narrativa se passaria no Outono ou no Inverno, no entanto, e atentando, ao seguimento do conto percebemos que não faria sentido o rapaz dirigir-se para o rio, onde recentemente um amigo teria nadado, em tal estação, pelo que viríamos a deduzir que estaríamos num mês de Verão, a época do ano em que tradicionalmente os rapazes da aldeia iam banhar-se, muito mais fresca que o habitual. Comparando os registos meteorológicos dos últimos cinquenta anos, da região, (Oliveira, 1977) isto permite-nos aferir, tendo por base o registo biográfico e cronológico do autor (Perdigão, 1981) que os factos narrados neste conto ocorreram em 1933 ou 1938, tendo o autor doze ou dezasseis anos.

[3] Provavelmente refere-se a Alzira da Conceição Lopes, amiga íntima de uma das tia do autor e residente na aldeia à época descrita. Consultando as fontes (Perdigão, 1981; Almeida, 1966) foi possível aferir que a dita senhora «se vestia habitualmente de preto», estando de luto desde 1924 pela morte do marido, e «andava possivelmente envolvida com o actual presidente da junta de freguesia», a quem «levava com frequência tortas de maçã». As más-línguas, inclusive admitiam que a sua filha mais nova, Adelaide Lopes (n. 1919) seria fruto da relação extra-conjugal com o presidente da junta, que já se manteria há muitos anos e com conhecimento de causa do falecido marido, um sujeito beneplácito[i] e algo apático que nunca terá feito nada para defender a sua honra, deixando-se definhar até uma morte prematura. Num pequeno diário artesanal encontrado foi possível aferir do desprezo a que Alzira era habitualmente votada pelas senhoras mais castas e respeitadoras da aldeia.

[4] A tia refere-se provavelmente a Arminda Pereira (1883-1952), uma das irmãs do pai do autor, residente na aldeia e «íntima amiga de Alzira da Conceição, com quem mantinha longas horas de conversa» (Perdigão, 1981, p. 163). Segundo o diário manuscrito de Adelaide Lopes, Arminda era uma senhora de reputação duvidosa dado que nunca casou, nem se lhe conheceram amantes. Pelo contrário, andava sempre rodeada de mulheres, e por vezes dormiam em sua casa desconhecidas de aldeias vizinhas. Tomando em consideração os inúmeros serões que passava junta com Alzira, fortes suspeitas de trocas comerciais entre ambas floresceram, embora nunca nada tenha sido atestado na literatura convencional.

[5] O Poço segundo a conservatória de Alijó, seria o nome genérico dado a um terreno de vinha e amendoeiras 450 metros a noroeste da aldeia. Era um terreno, na altura, bastante recatado e escondido onde muita gente aproveitava, para se escapulir, para fazer coisas mais indecorosas longe dos olhares da população.

[6] Contracção de “A Sua Benção”, saudação muito costumeira nos tempos rurais do princípio e meio do século, geralmente proferida pelos infantes a pessoas mais velhas a quem guardavam respeito ou reverência.

[7] Certamente o Rio Pinhão, afluente do Douro, que se acerca de várias aldeias do concelho de Alijó, e se situa bastante próximo de Vilar da Cardiça.

[8] Tentativa patética de aliteração com mudança desastrosa de registo. A interlocutora na vida real nunca proferiria uma frase destas, pelo que o autor incorreu num cataclismo estético: não trouxe nada de novo à narrativa, além de uma sensação de quebra, em que se empresta um momento melancólico que não tem razão de existir. A ter razão de existir especula-se que Alzira se tenha relembrado de bons momentos passados junto ao rio, possivelmente em trocas comerciais ora com o presidente da Junta, ora com a sua amiga íntima Arminda, ou talvez com ambos, não necessariamente e provavelmente nunca ao mesmo tempo, nem na mesma ocasião. No entanto, ressalvo que seria extremamente interessante se tal tivesse ocorrido, e tal, poderia emprestar um novo brilho à caracterização da personagem. Ficará a investigação deste caso aberta para estudos futuros.

[9] A preocupação justifica-se. No troço do Rio Pinhão mais próximo de Vilar de Cardiça, este é muito irregular e pedregoso, e não raro os jovens mais destemidos sofriam acidentes fatais. Mais do que afogamentos, muitos jovens faleciam por mergulhar sem cuidado e se estatelarem contra as fragas que abundam no local, sofrendo concussões, traumatismos, fracturas ou perdendo a consciência e afogando-se (Meireles, 1975, pp. 148-9).

[10] Miguel Júlio Moreira (1922-1991), residente da aldeia e amigo de infância do autor. Estima-se que tenha namorado durante a adolescência com Adelaide Lopes, relação efémera da qual recolheu muita saliva, pouco juízo e nenhuma descendência a assinalar.

[11] Derivado de Pancada. Provincialismo bacoco e uma tentativa frustrada de emprestar realismo ao diálogo já que o termo não era aplicado nas comunidades rurais do Norte de Portugal. Ao invés, “pancar-se” é bastante utilizado no Brasil com aplicações como “Eu me panquei” para aleijar-se, ou “Panquei-os” para dar porrada. Neste contexto o sentido é o de explicar que Júlio se tenha magoado no rio. A este respeito ver a nota 9.

[12] Não se compreende o tratamento formal de Alzira ao rapaz. Será expectável que possa ser uma simples gralha ou omissão. Outra hipótese seria um assomo de classe social da Linha de Cascais à cabeça de Alzira, no entanto, tal não seria credível e, pelo contrário, seria desconexo e desconchavado ou uma tentativa sofrível de fazer humor apressadamente. Poderia ser plausível dado as já demonstradas fracas capacidades literárias do autor que constantemente nos tem vindo a surpreender com malabarismos literários medíocres e inadequados ao contexto.

[13] Perante um caso destes Serranito (2010) afere que «Não compreendo o que o autor quer dizer com isto» [ii], no entanto é nossa opinião que se trata de mais uma tentativa falhada de o autor impor realismo à narrativa com o uso de um regionalismo típico. Tal palavra, no entanto, não se encontra atestada, e não é líquido o que ela queira dizer. Perdigão (1981, p. 177) estima que possa ser “Cozeu-se”, uma palavra bastante utilizada na região como sucedâneo de outra sua parónima com sentido bastante pejorativo, implicando por vezes trocas comerciais, mas neste caso com sentido que alguém que se meteu numa situação bastante difícil.

Referências:

Almeida, Deolinda (ed.) Boletim da Sociedade Recreativa de Vilar da Cardiça, Alijó: Edição da Câmara Municipal de Alijó, 1966

Lovejoy, Millicent. Habits and Culture of Portuguese people, London: Fever and Fever, 1990

Meireles, Artur. Hidrografia a Norte: Afluências e Confluências. Lisboa: Melro Pardo, 1975

Oliveira, Sousa. O Tempo que nos assola, Lisboa: Sociedade Portuguesa de Geografia, 1977

Perdigão, Antero. Vida e obra dos pequenos autores esquecidos, Coimbra: Árida, 1981

Pessanha, Carvalho. A Estrutura Narrativa Galaico-Transmontana, Porto: Épica, 1993

Serranito, F. Excursos sobre a Lucidez e sua ausência, Moita: Fedrona, 2010.

[i] Serranito considera que beneplácito é um substantivo e portanto considera-o mal aplicado pelo comentador.

[ii] Serranito desconsidera a ficção da sua própria citação, protestando «com tanta coisa pertinente que eu poderia dizer, eu apareço a dizer que não compreendo?».

O rapaz com problemas de comunicação (in Portuguese)

Era um rapaz inteligentíssimo. Nasceu no seio de uma família simples, humilde e que justamente por ser humilde, e não querer ver os filhos passarem dificuldades, acreditava no poder da educação. E insistiu muito com o catraio desde que nascera. Iam amiúde à biblioteca da escola e traziam os calhamaços que por lá se espraiavam. Livros de outrora amarelecidos pelo tempo mas carregados com a sapiência dos românticos do final do século XIX e com a história do princípio do século XX. Tratados de botânica, romances de cordel, actas pedagógicas, tudo um pouco por lá pululava. E o rapaz emborcava tudo à velocidade da luz. Havia ali rasgos de génio.

Aos poucos, ia crescendo e caminhando para a adolescência. Fez a quarta classe com distinção perante uma Senhora Dona Arminda embevecida. Dona Arminda era uma professora das antigas, em breve iria para a reforma. Cultíssima, tocava piano, falava Francês, Inglês, Grego e Latim e sabia imenso de História e de Filosofia. Não fora mais longe pelo seu amor às crianças e a sua postura rígida e tradicionalista. Mas estava confiante que fazia um bom trabalho com os infantes e que estes iriam muito mais bem preparados para o ciclo que a «Canalha moderna de agora que não querem saber de nada». Mas o rapaz era diferente. Queria saber de tudo, lia tudo, sempre com muita atenção. E seria o orgulho da terra com certeza.

No primeiro dia do ciclo, porém, tudo se pareceu desmoronar: chegou à escola e apresentou-se e olharam-no do lado. Chamaram-no de louco. As outras crianças postulavam que ele não falava português, se seria estrangeiro, não percebiam nada do que dizia. Na primeira aula de apresentação a nova Professora de Matemática chamou o seu nome e pediu-lhe que falasse um pouco de si. «Boas tardes senhora Professora. Tenho por graça Epifânio e muito me apraz a sua disciplina. É minha convicção que demonstrarei capacidade para resolver os problemas propostos e procurarei empenhar-me com afinco diariamente. Procurarei interagir com os meus coevos de maneira sempre ordeira e disciplinada e de resto serei quedo. Acredite no eflúvio de alegria que jorra do meu coração por estar neste estabelecimento de ensino tão nobre. Saiba que procurarei honrar sempre os meus compromissos. De resto, completo dois lustros daqui a duas Semanas, leio muito e gosto de atentar em Chopin e Lopes Graça. Muito obrigado!» – foram as palavras que lhe assomaram à boca. O queixo da emérita jovem licenciada nas ciências dos números desenrolou-se e ia-se desencaixando. E aquilo seria apenas o princípio.

Com os tempos o rapaz desesperava. Os colegas punham-no de lado. Os próprios professores acenavam com a cabeça mas pelos trejeitos dos olhos, rugas na testa ou tiques na boca percebia-se que nem sempre o compreendiam e davam respostas ao lado ou nada a ver. Os próprios pais começavam a ter dificuldade em entendê-lo. E o rapaz refugiava-se cada vez mais nos livros, velhos e amarelecidos, da biblioteca para escapar à tristeza e à solidão. E cada vez mais o ciclo se completava. Na escola nova começou a encontrar livros dos mais velhos, de Filosofia, de Grego e Latim. E cada vez mais aprendia os truques e dislates da língua e o fascínio por tanta riqueza e variedade assoberbavam-no. Começou a escrever um diário secreto, mas nem se deu ao trabalho de lhe arranjar aloquete: assim como assim ninguém o perceberia. E começou a sentir-se verdadeiramente atraído pela miscelânea arrojada dos arcaísmos, regionalismos e purismos. A sua verve era caótica e ao mesmo tempo fascinante, visto que era possível encontrar diferentes registos literários a tresmalharem-se nos discursos mais aberrantes. Mas o vício que o não largava de lhe infectar a oralidade e era preocupante. A certa altura pura e simplesmente desistiu. Assumiu que definitivamente tinha um problema de comunicação: sabia demasiado Português e um Português que existia, que toda a gente o tinha entusiasmado a aprender, que era bom, que era erudito, que seria fantástico, mas que depois de nada lhe servia na vida prática. Os outros eram analfabetos funcionais e começou ele próprio a desdenhar quem o olhava de lado. E a sentir-se um estrangeiro na sua própria terra, com a sua própria gente, com a sua própria língua. Um paradoxo que não teria cura e o levaria ao isolamento, à inanidade social, a uma asinina interacção diária e a registos académicos espantosos. Até ao dia em que uma rapariga de Leste integrou a turma.

A rapariga de Leste sabia pouco Português mas tinha a escola toda. E uma disciplina férrea. Foi no oitavo ano que se integrou. E por conselho dos professores pediu sempre os cadernos ao rapaz, para seguir a matéria, para não se perder, para estar organizada. E a rapariga de Leste não estranhou os cadernos do rapaz. Assim como assim, eram tudo vocábulos desconhecidos que só com um dicionário e com o tempo os decifraria. E para quem está de fora procurar “branco” ou “alvo” no dicionário é absolutamente a mesma coisa. A rapariga era também ela inteligentíssima e rapidamente dominou as tarefas. No princípio do Nono ano já ela ia à biblioteca requisitar livros de Eça de Queirós para se integrar mais e mais com a nossa língua. E mais e mais com os apontamentos que religiosamente copiava do Rapaz.

Foi no Décimo ano, «Olha Marília, as flautas dos Pastores, que bem que soam, como estão cadentes»… Bocage invectivava a discussão de Poesia na aula de Português. E os ósculos ardentes dominaram o panorama. «Ósculo? O que raio é um Ósculo, stôra?». E a professora perguntou à turma se alguém sabia. E o rapaz e a rapariga do Leste disseram em coro e em simultâneo que sabiam. «Eu sei!», «Eu sei!». «E o que é então? Esclareçam os vossos colegas!». E nesse momento, olharem-se nos olhos e o rapaz percebeu tudo. E percebeu que o seu calvário terminara. E que finalmente tinha resolvido os seus problemas de comunicação, com alguém que veio do frio. E deu em plena aula de Português, em plena turma, em frente a toda a gente, o seu primeiro Ósculo digno de registo. Toda a gente aplaudiu e aclamou. E uma nova forma de comunicar nascera.

A mulher flutuante que simplesmente escuta (in Portuguese)

Era uma jovem mulher com a força dos livros. O seu passatempo durante a infância, adolescência fora ler, ler, ler. Devorara páginas e páginas de tudo o que lhe aparecia à frente: desde os grandes clássicos, aos modernos, poesia, romance, ensaio. Com o passar do tempo agudizou-se em filosofia e sociedade. Deu uma perninha na economia, na física, na agronomia, no misticismo e psicologia. Difractava-se por tudo quanto lhe aparecia escrito em papéis amarelecidos e abominavas as novas tecnologias de informação e comunicação.

Tal panóplia de conhecimento provocava-lhe epifanias ocasionais e, à medida que atingia a idade adulta, sentia-se mais próxima da terra e do universo que a rodeava mas cada vez mais distante da sociedade dos Homens. Uma sociedade que a hostilizava, e marginalizava, de cada vez que abria a boca para expor as suas convicções, para prelar sobre as fés da natureza e da boa vontade, para iluminar os mais obscurecidos pela ausência de horizonte. Um belo dia fartou-se. E noutro dia, não tão belo, fartou-se ainda mais um pouco. Foi-se fartando, cada vez mais, e perdendo a esperança que a sociedade se redimisse e começou a assunção do que viria a ser uma atitude de ermitério voluntário.

Contrapondo, iniciou-se também o caminho para a comunhão com o que realmente interessava: o mundo, a natureza, a terra mãe. Nas noites de calor aflitivas desprendia-se da roupa que a sufocava e assim apercebeu-se da vantagem das togas, mantos, saris, leves pedaços de tecido que apenas lhe protegeriam o corpo, o essencial. Nada de espartilhos ou decorações. Manter o simples mínimo. E foi assim que ganhou a alcunha de flutuante. Quem a via passar madrugada fora, rumo ao sol nascente, diria que voava. Era vê-la deslizar avenida fora com a brisa a desfraldar o alvo quimono que envergava.

E deslizava, sempre, pelo menos onze quilómetros. Ainda morava na cidade mas cada vez menos. Saía para ver nascer o sol junto às margens de um afluente periférico e era esse passeio matinal que a revitalizava. A punha em contacto com as emoções mais puras que sentia, afastando-se de tudo e todos, e tomando contacto com o céu, com as árvores, com os pássaros. Quando chegava ouvia a água límpida correr e deixava-se salpicar pelas gotas que os zéfiros lhe traziam. Cerrava os olhos e entrava no seu mundo interior. E ouvia. Ouvia porque ali ninguém a questionava, ninguém lhe fazia perguntas, ninguém ousava recalcitrá-la. Aceitavam-na como ela era e ofereciam-lhe tudo o que precisava. Rilhava uma maçã que trouxera consigo, bebia chá de um termo e comia um pão integral com alface.

Um cão perdido abeirou-se e ela deu-lhe uma festinha e um pedaço do seu pão. Ele olhou-a, ternamente, abriu a boca, deitando a língua de fora e abanando o rabo. E a mulher sorriu e sentiu que tinha feito um amigo. Foi nesse instante que resolveu que nada mais precisava. E que se apercebeu que quanto mais falava mais sofria. E decidiu remeter-se à escuta. Compreendeu que as pessoas da sociedade anseiam pelo reconhecimento, por serem ouvidas e aplaudidas. Ninguém gosta de ser criticado ou rebaixado. Há todo uma explosão de reacções negativas e adversas que se alevantam. Assim, para quê pressionar o gatilho? Percebeu que se olhasse, simplesmente, sorrisse e assentisse granjearia todos os amigos do mundo. É assim que os cães fazem e têm todos os amigos do mundo.

Hoje a mulher flutuante e que apenas escuta é feliz. Ainda vive na cidade mas continua a fazer passeios de onze quilómetros pela madrugada e vai ver o sol nascer ao afluente periférico. Quando se encontra com os Homens sorri, sorri muito, meneia levemente o corpo e assente a tudo que sim com a cabeça. Tem uma data de amigos novos e todos a estimam e convidam para as festas. Todos são pessoas inteligentíssimas, com capacidades acima da média, e sem os incríveis e irracionais defeitos que apontam aos outros todos. Têm teorias mil sobre como deveria funcionar o mundo e a sociedade, e fazem valer a sua palavra em todas as ocasiões. Estranhamente, andam sempre irritados, sem tempo para nada e profundamente infelizes.