O Homem imaterial ou a libertação digital (in Portuguese)

Sempre fora um especulador e jogador compulsivo. As artimanhas no mundo da matéria virtual tinham-lhe rendido milhões, muitos milhões, que recheavam contas bancárias um pouco por toda a parte. Hoje em dia, apenas com um dispositivo digital, instalado em qualquer lado, e com uns minutos diários de ordens, mantinha o capital a circular algures nas redes e a gerar mais capital. E era tudo o que precisava para do capital gerar material. Cartões de débito e crédito doirados atestavam o seu poder no mundo real, material, e conseguiam-lhe tudo o que queria. Tanto assim era que quando completou quarenta anos, tendo um património considerável começou a fartar-se e a achar tudo dispensável. A materialidade já nada lhe dizia, apenas o que se poderia fazer com ela. Sozinho no mundo, nunca casara, nunca estabilizara, nunca tivera paz. Procurou a paz da maneira que sabia, livrando-se de tudo quanto era material, sem de nada se livrar. Vendeu todas as suas posses. Converteu tudo o que era perecível em digital. E sentiu-se dono do seu destino com apenas as roupas do corpo e os documentos e cartões que atestavam a sua identidade física e estabeleciam o contacto entre o seu mundo corpóreo e o conceito de sujeito que a sociedade tinha de si. Apenas essas ligações, esses prolongamentos eram os necessários para se sustentar.

Quando saiu do notário sentiu-se livre. Sabia que era um homem novo. Um homem sem rosto, nem posses físicas. Mas com todas as que quisesse. E assim foi. Sem fazer qualquer mala que já não tinha dirigiu-se ao aeroporto e foi para Paris. A fome que o assolava era consolada com o que via. Mal chegou dirigiu-se a um restaurante caríssimo, com vista sobre o Sena e pediu o que lhe apeteceu sem se preocupar com o assunto. Comeu e bebeu quanto pôde, a olhar o rio e os pássaros. Pensou na vida e sentiu a brisa da noite no rosto. Era o cheiro da despreocupação. No final passou o seu cartão e saiu de cena. Caminhou tanto quanto aguentou, indo pelas ruas que mais lhe apraziam e vendo as luzes que o fascinavam. Quando se fartou, chamou um táxi e pediu para ir para os Campos Elísios e o melhor hotel que lá houvesse.

Chegou e deslumbrou-se com a avenida cheia de gente e luzes. Abeirou-se do que melhor lhe pareceu e entrou. Pediu uma suite e ascendeu aos céus. Lá, deleitou-se com a televisão enquanto lhe apeteceu. Depois adormeceu e teve sonhos tranquilos.

Acordou assarapantado com o sol a dar-lhe na cara. Pediu o serviço de quartos e um pequeno almoço monumental na varanda. Respirou o ar da manhã com torradas com compota, café com leite, sumo de laranja, croissants vários. Após uma breve higiene desceu. Pagou e saiu.

Conforme descia a avenida via as montras. Entrou numa loja onde um fato lhe chamou a atenção. Vestir a mesma roupa após o banho fora um mal necessário mas mais não. Não tinha armários nem precisava. Tocou à campainha e divertiu-se a experimentar um pouco de tudo. Desde roupa interior, a fato completo, a gravata e sapatos, vestiu-se dos pés à cabeça largando a roupa antiga pelo caminho. Quando lhe pareceu bem comprou o jornal e sentou-se num banco de jardim a ler. Passado um bocado decidiu que lhe apetecia ir ver a Mona Lisa. Apanhou um táxi e passeou-se até ao Louvre onde ficou o tempo que lhe apeteceu. Depois disso haveria de decidir que queria ir almoçar a Versailles, mas decidiu que queria gente. Então desta vez foi de transportes públicos como as pessoas. E ainda meteu conversa com uma senhora que julgou conhecê-lo de um Verão passado, que jurava que teriam sido vizinhos de toldo. Claro que era equívoco, mas sempre deu uma conversa banal interessantíssima, de um nível a que já não estava acostumado.

Repastou faustosamente em Versailles, entrou numa pequena livraria, encontrou uns pensamentos de Deleuze e resolveu levá-los consigo para se passear pelo palácio. Vagabundeou por onde quis apreciando os quartos, os ornamentos, os jardins. Pousou umas horas nos jardins a ler o livro que adquirira. Quanto achou que já chegava deixou o livro pousado e partiu. Poderia sempre comprar outro exemplar no futuro para o terminar de ler. Decidiu ir apanhar o comboio para Londres onde iria jantar.

Chegou a Londres já de noite, numa viagem onde meteu conversa com uma rapariga que lhe pareceu sozinha e interessante. Afinal era uma empresária em viagem de negócios. Divorciada. As viagens de negócios eram um mal necessário (como ele sabia!), e poderiam ser muito solitárias. Tinha reunião logo de manhãzinha e decidiu que viria no dia anterior. Patati-patata, deram por ambos a jantar num restaurante junto a Trafalgar Square e adiantando uma conversa interminável. No final parecia que já se conheciam há anos. Ele pagou a conta, e ofereceu-lhe uma rosa, comprada a um vendilhão contente que passara. Ela fascinada levou-o para o seu hotel onde amoraram imenso antes de adormecerem nos braços um do outro.

Quando o sol lhe bateu na cara, já ela tinha partido para a reunião, deixando um bilhete onde lhe desejava um fantástico dia e o seu cartão de contacto. O homem acordou, tomou o pequeno almoço, e decidiu requisitar o computador com internet. De lá aproveitou para mandar umas quantas ordens e pôr-se em dia no mundo virtual. Ao fim de uma hora tinha garantido a circulação de mais uns quantos milhões, o cartaz de espectáculos da cidade e as melhores marcas de roupa. Lavou-se e saiu para comprar um fato novo. Quando a sua nova amiga presumivelmente se despachou da reunião, pediu um telefone e ligou-lhe para o telemóvel que vinha no cartão. Combinou almoço com ela e ir ver um espectáculo de Jazz.

Ao fim da tarde, ela regressaria a Paris, ele por sua vez, ficaria em Londres mais três dias, passeando-se, comprando outro exemplar do livro que lera em Versailles, e não ficaria confuso por ler o final numa tradução deplorável para língua de sua majestade. Deixaria dois fatos como legado a diversos vagabundos, conheceria mais meia dúzia de restaurantes, uns quantos museus e galerias de arte e uma casa de jogos.

Na casa de jogos, haveria de perder dez mil libras a jogar bilhar para um escocês magrinho e fumador de nome O’Hara, com quem teve conversas monumentais sobre a vida, os campos, as mulheres e a infância. Ofereceu-lhe mais dez mil libras para o levar a visitar o castelo que rodeava os campos onde este nascera e donde tão mirabolantes e fascinantes histórias surgiam. O’Hara aceitou e partiram. De comboio. Vagueou uma semana pela Escócia, conhecendo terras, castelos, lendas. Parando em restaurantes e pousadas duvidosas mas que muito o aprouveram dado o kitsch que evocavam. Conheceu gente, nomeadamente duas amigas de infância de O’Hara muito atiradiças e que lhe deram muito amor, após ele lhes ter oferecido roupa nova e várias jóias.

Uma manhãzinha desapareceu. O’Hara e as amigas bem clamaram por ele, mas apenas o vento lhes respondeu. O homem estava numa elevação sentindo um vento forte na cara e vendo o mar ao longe. Pensava na vida, e na paz que o campo lhe trazia. Tinha um velho livro na mão, que encontrara num alfarrabista, com histórias e lendas tradicionais. E sentiu muita paz. Por esta altura até trajava um Kilt e tinha-se despojado dos fatos. Viveu mais duas semanas por cabanas rurais escocesas, comendo onde calhava, conhecendo quem lhe aparecia à frente, fazendo festas às ovelhas e apanhando com chuva miudinha na cara. Para todos os efeitos estava sempre de férias e era um turista muito simpático que ficava no coração de todas as pessoas. E todos gostamos de receber um turista endinheirado e mostrar-lhe as melhores coisas da nossa terra.

Dali saltou para Nova Iorque, para o bulício. As duas semanas de pasmaceira Escocesa tê-lo-iam começado a entediar. Em Nova Iorque conheceu mulheres mil, foi a festas fantásticas e barulhentas, viu musicais com actores e cantores de talento incrível, arte moderna, comeu em restaurantes panorâmicos coisas com nomes inenarráveis servidas em porções diminutas em pratos alvos enormes. Quando se fartou do barulho da cidade, perdeu-se na neve do Ontário, onde andou à caça aos Ursos, sem nunca o conseguir. Quando se fartou da neve, enterrou os dedos na areia escaldante de Cabo Verde. Fez um filho que nunca haveria de conhecer com uma mulata simpática da ilha do Fogo, antes de ir apanhar uma bebedeira monumental no Carnaval do Rio. Passou duas semanas no meio das filmagens de um filme de Bollywood. E alugou um autocarro que pintou de cor-de-rosa para conhecer o deserto Australiano.

Hoje em dia ninguém sabe onde anda o homem imaterial. Apenas se sabe que é muito feliz porque faz o que quer, quando quer. Conhece quem quer e quem não quer, e é virtualmente incontactável a não ser que ele próprio tome a iniciativa. De quando em vez, entra no mundo digital para enviar umas ordens e manter a imaterialidade a circular. Que por sua vez gera a materialidade necessária para ele se manter à face da terra como quer. No outro dia, deixou um vestígio mais palpável: publicou um ebook sobre Liberdade e Felicidade, onde atesta que apesar de todas as coisas ilusórias do mundo, há uma que continua a ser o seu calcanhar de Aquiles: os laços emocionais que, no fundo, fazem dele Homo Sapiens Sapiens. E por muito que se tenha desprendido, por muito que tudo circule, a sensação de lar, a sensação de ter alguém que o espere, que lhe dê carinho genuíno, que lhe pergunte pelas notas da escola, que lhe ralhe, a sensação de ter algo e alguém onde voltar, é aquilo que sente mais saudades. E aquilo que o mantém num eterno limbo de saber se se vai manter assim para sempre, na liberdade digital, ou se um dia ainda vai voltar à terra dos comuns mortais, a ter uma posse que seja, algures, com alguém; a não ser um eterno turista, a ser um cidadão.

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