Parábola da Autarquia (in Portuguese)

– Ora bem, meus caros, a situação é a seguinte: o jardim está algo pobre e temos dinheiro para canteiros novos. Gostaria de saber se os senhores concordam em que gastemos esta parte do orçamento na compra, instalação e manutenção de canteiros de flores no jardim da rua de baixo.

 

– Canteiros novos? Ficam bonitos, mas já se sabe que as senhoras com os cãozinhos estragam tudo, vão logo para lá cheirar e fuçar com as patas, vão destruir aquilo tudo num instante.

 

– Então acha má ideia?

 

– Eu acho boa, só que acho que vai ser tudo destruído, e depois os rapazes que andam ali à noite com a passa e tal, e depois pregam fogo e sujam as paredes todas, não vê? Tudo grafitado, uma pouca vergonha. Isto era preciso era polícia e multas quando fossem apanhados a estragar. Mas multas à seria de duzentos contos para cima.

 

– Então está-me a dizer que prefere que não se invista dinheiro nos canteiros é isso?

 

– Já viu que devíamos se calhar alcatroar a estrada. Está cheia de buracos.

 

– Mas o orçamento para a estrada já foi debatido na reunião anterior. Eu gostaria de saber é se sempre plantamos os canteiros. Acha boa ideia ou má ideia plantar os canteiros?

 

– Acho bem, mas é dinheiro deitado à rua. Não vão durar tempo nenhum, vai ficar tudo estragado que esta gente não sabe dar valor a nada.

 

– Então que sugere que se faça, visto que não mandamos na polícia nem poderemos controlar o valor das multas?

 

– Eu não sugiro nada, acho que é dinheiro deitado à rua.

 

– Então acha que não se devem construir os canteiros, mas não tem alternativa? Então acha que está tudo bem consoante está agora?

 

– Eu não. Acho que agora está tudo mal. A estrada com buracos, as paredes sujas e o jardim uma miséria.

 

– Então, pronto, sempre concorda que deveríamos melhorar o jardim?

 

– O jardim ia ficar mais bonito, mas já sabe que vão estragar tudo, é dinheiro deitado à rua.

 

– Mau!… O senhor não é capaz de se decidir. Então diga-me lá, se só tem críticas a fazer, tem alguma proposta concreta? O que o senhor faz com o dinheiro que dispomos então?

 

– Nada, não faço nada que esta gente não dá valor nenhum a nada. Guarde-o para a próxima legislatura.

 

– Mas…mas… então isso significa que está satisfeito com a situação actual? Acha que não precisamos de melhoramentos?

 

– Nem diga uma coisa desses, não ouviu o que lhe acabei de dizer? Está tudo mal, o jardim uma miséria e estrada por alcatroar, as paredes sujas. É uma lástima, uma incompetência.

 

– Sim, já ouvi, já mo disse mais do que uma vez, então o que sugere que se faça?

 

– Já para não falar da boca de incêndio que foi roubada e arrancada no outro dia. Só o dinheirão que isso não foi, e nunca se soube quem a tirou nem a mando de quem. Isto é tudo uma trúpia, uma cambada que não sabe o que há-de fazer e estragam tudo, não querem saber de nada…

 

– Percebo, percebo, mas…. a questão era os canteiros…

 

– Mas vomecê não se cala com os canteiros quando a junta tem tantos problemas? Olhe, vou mas é para casa que esta discussão já me pôs mal disposto e aqui estou a ver que não se faz nada. Falaremos melhor noutra altura.

 

 

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