O rapaz com problemas de comunicação (in Portuguese)

Era um rapaz inteligentíssimo. Nasceu no seio de uma família simples, humilde e que justamente por ser humilde, e não querer ver os filhos passarem dificuldades, acreditava no poder da educação. E insistiu muito com o catraio desde que nascera. Iam amiúde à biblioteca da escola e traziam os calhamaços que por lá se espraiavam. Livros de outrora amarelecidos pelo tempo mas carregados com a sapiência dos românticos do final do século XIX e com a história do princípio do século XX. Tratados de botânica, romances de cordel, actas pedagógicas, tudo um pouco por lá pululava. E o rapaz emborcava tudo à velocidade da luz. Havia ali rasgos de génio.

Aos poucos, ia crescendo e caminhando para a adolescência. Fez a quarta classe com distinção perante uma Senhora Dona Arminda embevecida. Dona Arminda era uma professora das antigas, em breve iria para a reforma. Cultíssima, tocava piano, falava Francês, Inglês, Grego e Latim e sabia imenso de História e de Filosofia. Não fora mais longe pelo seu amor às crianças e a sua postura rígida e tradicionalista. Mas estava confiante que fazia um bom trabalho com os infantes e que estes iriam muito mais bem preparados para o ciclo que a «Canalha moderna de agora que não querem saber de nada». Mas o rapaz era diferente. Queria saber de tudo, lia tudo, sempre com muita atenção. E seria o orgulho da terra com certeza.

No primeiro dia do ciclo, porém, tudo se pareceu desmoronar: chegou à escola e apresentou-se e olharam-no do lado. Chamaram-no de louco. As outras crianças postulavam que ele não falava português, se seria estrangeiro, não percebiam nada do que dizia. Na primeira aula de apresentação a nova Professora de Matemática chamou o seu nome e pediu-lhe que falasse um pouco de si. «Boas tardes senhora Professora. Tenho por graça Epifânio e muito me apraz a sua disciplina. É minha convicção que demonstrarei capacidade para resolver os problemas propostos e procurarei empenhar-me com afinco diariamente. Procurarei interagir com os meus coevos de maneira sempre ordeira e disciplinada e de resto serei quedo. Acredite no eflúvio de alegria que jorra do meu coração por estar neste estabelecimento de ensino tão nobre. Saiba que procurarei honrar sempre os meus compromissos. De resto, completo dois lustros daqui a duas Semanas, leio muito e gosto de atentar em Chopin e Lopes Graça. Muito obrigado!» – foram as palavras que lhe assomaram à boca. O queixo da emérita jovem licenciada nas ciências dos números desenrolou-se e ia-se desencaixando. E aquilo seria apenas o princípio.

Com os tempos o rapaz desesperava. Os colegas punham-no de lado. Os próprios professores acenavam com a cabeça mas pelos trejeitos dos olhos, rugas na testa ou tiques na boca percebia-se que nem sempre o compreendiam e davam respostas ao lado ou nada a ver. Os próprios pais começavam a ter dificuldade em entendê-lo. E o rapaz refugiava-se cada vez mais nos livros, velhos e amarelecidos, da biblioteca para escapar à tristeza e à solidão. E cada vez mais o ciclo se completava. Na escola nova começou a encontrar livros dos mais velhos, de Filosofia, de Grego e Latim. E cada vez mais aprendia os truques e dislates da língua e o fascínio por tanta riqueza e variedade assoberbavam-no. Começou a escrever um diário secreto, mas nem se deu ao trabalho de lhe arranjar aloquete: assim como assim ninguém o perceberia. E começou a sentir-se verdadeiramente atraído pela miscelânea arrojada dos arcaísmos, regionalismos e purismos. A sua verve era caótica e ao mesmo tempo fascinante, visto que era possível encontrar diferentes registos literários a tresmalharem-se nos discursos mais aberrantes. Mas o vício que o não largava de lhe infectar a oralidade e era preocupante. A certa altura pura e simplesmente desistiu. Assumiu que definitivamente tinha um problema de comunicação: sabia demasiado Português e um Português que existia, que toda a gente o tinha entusiasmado a aprender, que era bom, que era erudito, que seria fantástico, mas que depois de nada lhe servia na vida prática. Os outros eram analfabetos funcionais e começou ele próprio a desdenhar quem o olhava de lado. E a sentir-se um estrangeiro na sua própria terra, com a sua própria gente, com a sua própria língua. Um paradoxo que não teria cura e o levaria ao isolamento, à inanidade social, a uma asinina interacção diária e a registos académicos espantosos. Até ao dia em que uma rapariga de Leste integrou a turma.

A rapariga de Leste sabia pouco Português mas tinha a escola toda. E uma disciplina férrea. Foi no oitavo ano que se integrou. E por conselho dos professores pediu sempre os cadernos ao rapaz, para seguir a matéria, para não se perder, para estar organizada. E a rapariga de Leste não estranhou os cadernos do rapaz. Assim como assim, eram tudo vocábulos desconhecidos que só com um dicionário e com o tempo os decifraria. E para quem está de fora procurar “branco” ou “alvo” no dicionário é absolutamente a mesma coisa. A rapariga era também ela inteligentíssima e rapidamente dominou as tarefas. No princípio do Nono ano já ela ia à biblioteca requisitar livros de Eça de Queirós para se integrar mais e mais com a nossa língua. E mais e mais com os apontamentos que religiosamente copiava do Rapaz.

Foi no Décimo ano, «Olha Marília, as flautas dos Pastores, que bem que soam, como estão cadentes»… Bocage invectivava a discussão de Poesia na aula de Português. E os ósculos ardentes dominaram o panorama. «Ósculo? O que raio é um Ósculo, stôra?». E a professora perguntou à turma se alguém sabia. E o rapaz e a rapariga do Leste disseram em coro e em simultâneo que sabiam. «Eu sei!», «Eu sei!». «E o que é então? Esclareçam os vossos colegas!». E nesse momento, olharem-se nos olhos e o rapaz percebeu tudo. E percebeu que o seu calvário terminara. E que finalmente tinha resolvido os seus problemas de comunicação, com alguém que veio do frio. E deu em plena aula de Português, em plena turma, em frente a toda a gente, o seu primeiro Ósculo digno de registo. Toda a gente aplaudiu e aclamou. E uma nova forma de comunicar nascera.

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