A mulher flutuante que simplesmente escuta (in Portuguese)

Era uma jovem mulher com a força dos livros. O seu passatempo durante a infância, adolescência fora ler, ler, ler. Devorara páginas e páginas de tudo o que lhe aparecia à frente: desde os grandes clássicos, aos modernos, poesia, romance, ensaio. Com o passar do tempo agudizou-se em filosofia e sociedade. Deu uma perninha na economia, na física, na agronomia, no misticismo e psicologia. Difractava-se por tudo quanto lhe aparecia escrito em papéis amarelecidos e abominavas as novas tecnologias de informação e comunicação.

Tal panóplia de conhecimento provocava-lhe epifanias ocasionais e, à medida que atingia a idade adulta, sentia-se mais próxima da terra e do universo que a rodeava mas cada vez mais distante da sociedade dos Homens. Uma sociedade que a hostilizava, e marginalizava, de cada vez que abria a boca para expor as suas convicções, para prelar sobre as fés da natureza e da boa vontade, para iluminar os mais obscurecidos pela ausência de horizonte. Um belo dia fartou-se. E noutro dia, não tão belo, fartou-se ainda mais um pouco. Foi-se fartando, cada vez mais, e perdendo a esperança que a sociedade se redimisse e começou a assunção do que viria a ser uma atitude de ermitério voluntário.

Contrapondo, iniciou-se também o caminho para a comunhão com o que realmente interessava: o mundo, a natureza, a terra mãe. Nas noites de calor aflitivas desprendia-se da roupa que a sufocava e assim apercebeu-se da vantagem das togas, mantos, saris, leves pedaços de tecido que apenas lhe protegeriam o corpo, o essencial. Nada de espartilhos ou decorações. Manter o simples mínimo. E foi assim que ganhou a alcunha de flutuante. Quem a via passar madrugada fora, rumo ao sol nascente, diria que voava. Era vê-la deslizar avenida fora com a brisa a desfraldar o alvo quimono que envergava.

E deslizava, sempre, pelo menos onze quilómetros. Ainda morava na cidade mas cada vez menos. Saía para ver nascer o sol junto às margens de um afluente periférico e era esse passeio matinal que a revitalizava. A punha em contacto com as emoções mais puras que sentia, afastando-se de tudo e todos, e tomando contacto com o céu, com as árvores, com os pássaros. Quando chegava ouvia a água límpida correr e deixava-se salpicar pelas gotas que os zéfiros lhe traziam. Cerrava os olhos e entrava no seu mundo interior. E ouvia. Ouvia porque ali ninguém a questionava, ninguém lhe fazia perguntas, ninguém ousava recalcitrá-la. Aceitavam-na como ela era e ofereciam-lhe tudo o que precisava. Rilhava uma maçã que trouxera consigo, bebia chá de um termo e comia um pão integral com alface.

Um cão perdido abeirou-se e ela deu-lhe uma festinha e um pedaço do seu pão. Ele olhou-a, ternamente, abriu a boca, deitando a língua de fora e abanando o rabo. E a mulher sorriu e sentiu que tinha feito um amigo. Foi nesse instante que resolveu que nada mais precisava. E que se apercebeu que quanto mais falava mais sofria. E decidiu remeter-se à escuta. Compreendeu que as pessoas da sociedade anseiam pelo reconhecimento, por serem ouvidas e aplaudidas. Ninguém gosta de ser criticado ou rebaixado. Há todo uma explosão de reacções negativas e adversas que se alevantam. Assim, para quê pressionar o gatilho? Percebeu que se olhasse, simplesmente, sorrisse e assentisse granjearia todos os amigos do mundo. É assim que os cães fazem e têm todos os amigos do mundo.

Hoje a mulher flutuante e que apenas escuta é feliz. Ainda vive na cidade mas continua a fazer passeios de onze quilómetros pela madrugada e vai ver o sol nascer ao afluente periférico. Quando se encontra com os Homens sorri, sorri muito, meneia levemente o corpo e assente a tudo que sim com a cabeça. Tem uma data de amigos novos e todos a estimam e convidam para as festas. Todos são pessoas inteligentíssimas, com capacidades acima da média, e sem os incríveis e irracionais defeitos que apontam aos outros todos. Têm teorias mil sobre como deveria funcionar o mundo e a sociedade, e fazem valer a sua palavra em todas as ocasiões. Estranhamente, andam sempre irritados, sem tempo para nada e profundamente infelizes.

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