Da Referência (in Portuguese)

Suponha que olha para um livro. E que em vez de ler como está habituado a fazer começa a olhar e a interpretar cada letra uma por uma. u-m-a p-o-r u-m-a e que a cada uma atribui um sentido, uma referência. A leitura poderá tornar-se penosa e desconexa, mas a verdade é conseguiu encontrar todo um outro sentido para aquele conjunto de letras. Para si agora “u” poderá querer dizer todo um universo de imagens ou sensações. E a conjugação de todos esses signos fazem parte de uma narrativa. E não era de todo a narrativa esperada pelo narrador, ou pelo autor. O autor quando escreveu aqueles signos no livro partiu do princípio que o leitor faria uma associação a eles tão aproximada quanto possível quanto ele próprio faz deles. E mesmo isso poderá dar origem a equívocos ou a dualidades. Mesmo quando nos movemos em referentes muito parecidos nada nos garante que sejam iguais.

Quando eu escrevo “um belo bife”, o leitor poderá imaginar toda uma miríade de coisas, mas eu não poderei aventar se estaremos a falar de um grande bife, de um bife muito bem passado, mal passado, bem temperado, cor-de-rosa ou azul. O que é um belo bife para mim poderá não ser para si, as características não estão estanques. Mas acabamos por nos entender que seria um bife que traria prazer a quem o comesse, mesmo que não saibamos exactamente porquê.

E então quando entramos num domínio como a música tudo se torna ainda mais etéreo. Quando eu presenteio o ouvinte com um piano e algum eco a fazer um dó-si-dó, se calhar eu tenho alguma coisa em mente, mas o ouvinte terá outra. Não é de todo uma linguagem consensual, na medida em que nem sequer é uma verdadeira linguagem. Eu poderei ter toda uma narrativa, uma série de associações na minha mente para aquelas notas. Mas o ouvinte não as terá, terá outras.

Quando aprendemos a ler o alfabeto, na nossa cultura, geralmente aprendemos uma série de referentes e símbolos que passamos a associar a determinados signos. Na música parece faltar toda essa dimensão e só a imaginação nos vale. Será possível fazer escola de referências musicais? Aprender de pequenino que determinadas conjugações de notas querem dizer determinadas coisas? No fundo quando vemos uma novela estamos a fazer isso. Ao ouvirmos sempre determinado tema a aparecer quando aparece determinado personagem estamos a criar uma associação, uma referência.

No futuro, a novela poderá já não estar presente. Mas se aquele tema nos for dado a ouvir lembrar-nos-emos sempre «Olha, era a música do mordomo!». E há todo um trabalho permanente de construção e desconstrução de associações e referentes presentes na música ao longo de toda a nossa vida e a nossa cultura. Poder-se-á indagar até que ponto elas moldam também o gosto e o prazer quando escutamos determinada música ou género afim.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s