Porque falham as discussões? (in Portuguese)

É muito comum vermos debates eternizarem-se e discussões arrastarem-se e falharem. Habermas preconizava que a comunicação alcançava-se com o entendimento e o consenso era o seu grande objectivo. Quando duas pessoas ou facções debatem o seu objectivo, à partida, deveria ser esse mesmo: o mútuo consenso após avaliação dos argumentos dos dois lados.

O problema principal reside quando as duas partes não estão a falar da mesma coisa e não se conseguem entender porque entram em vício de forma. Quando alguém vira o ónus da prova, quando alguém procura utilizar uma crença como um argumento, ou quando alguém desvia a conversa é impossível estabelecer-se comunicação e debate. E na maioria das vezes é o que acontece, sendo por isso inútil prosseguir os trabalhos.

É muito frequente assistirmos a coisas do tipo «É óbvio que Deus criou o mundo», «Claro que os animais devem ter direitos como as pessoas» ou «Homossexualidade é errado, não é natural». E quando alguém tenta contrapôr não consegue porque quem afirma diz logo «Se isto não é óbvio para ti és ignorante» ou «É ridículo pedires-me provas, sempre foi assim».

No entanto qualquer pessoa esclarecida poderá pedir provas do que ouviu. A ciência e a filosofia só se podem ancorar em premissas e conclusões válidas a partir dessas premissas. O que muitas vezes acontece é que as pessoas se ancoram em tradições (sempre foi assim, só conheço isto), em argumentos de autoridade (vem assim nos livros, fulano atestou que era assim), ou em falácias (isto é inexplicável por isso só pode ser sobrenatural/obra divina) para esgrimir convicções que não têm qualquer cientificidade ou razão de ser a não ser o seu próprio obscurantismo ou mente fanática.

Mais, quem quer, à força, impor a sua opinião já formada aos outros não tenta comunicar, é pura acção estratégica, é uma tiranização. Daí que é muito importante em qualquer discussão esclarecer bem os conceitos base, as premissas de onde partimos e porque afirmamos o que afirmamos sem ter medo de, quando percebemos que os nossos argumentos são falsos ou incompletos, poder rever e reajustar a nossa posição.

Mais uma vez o que acontece é que quando nos deparamos com opiniões antagónicas ou aparentemente surpreendentes porque vão contra tudo o que pensamos a solução mais fácil é o insulto, a fuga, a extrapolação, a especulação e o ir buscar coisas que não têm nada a ver em lugar de percebermos o que é que o outro nos está de facto a pedir que esclareçamos, provemos, ou demonstremos. E se compreendermos que não há má fé, ou apenas ignorância de algum conteúdo nada temos a perder em explicar calmamente o nosso ponto de vista ancorado nas nossas fontes e provas. E se encontramos alguém que nos contrapõe também com argumentos válidos perceber até que ponto os pontos de vista são inconciliáveis porque o facto afinal ainda não foi provado, ou se estamos a tentar demonstrar coisas diferentes.

Por outro lado se sabemos que temos a razão do nosso lado e fortes provas que sustentam as nossas convicções não devemos partir de um princípio de arrogância de «Os factos estão cá todos e à vista, quem estiver interessado que os leia que eu também li e me informei, se não quer ver a luz azar». É perfeitamente compreensível que quando os assuntos são recentes, pouco debatidos, ou as pessoas têm vindo a ser bombardeadas com informações erróneas ao longo dos tempos, que já achem que têm os factos todos na mão. E julgam estar muito informadas sobre o assunto. E logo não precisam de explicações extra.  Assim é sempre útil a divulgação científica prévia e o trabalho de referências para elucidação das pessoas que, caso contrário, estarão condenadas ao obscurantismo por falta de evidências e informações actualizadas e correctas.

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