Dos fones na acusmática (in Portuguese)

Recentemente enviei um instrumental a uma amiga com instruções específicas para ser ouvido de olhos fechados e com fones. Ela não percebeu bem o alcance deste pedido. Chamou-lhes «Dispositivos autistas que artificialmente nos isolavam do mundo». E eu percebo que muita gente pense assim, quão melhor é ter os sentido alerta e absorver os sons todos do mundo em redor, ouvir a música a vir de colunas e misturar-se com o som ambiente. Mas as coisas têm todas uma razão de ser.

Já Linda Perry, a minha grande referência no mundo da música Rock, quando concebeu o seu primeiro álbum a solo, o fez para fones. Era um álbum para ser escutado com fones. E isso fazia toda a diferença dizia ela. E eu respeito a sua vontade e ouço-o assim. E realmente com fones, ouve-se e sente-se muita coisa que se perde sem eles.

A razão de ser dos fones e dos olhos fechados prende-se com a espacialização e a intenção acusmática. Acusmática, do grego, aqui é utilizado como sendo uma música para criar imagens. Que potencie as imagens inexistentes na nossa mente. Espacialização é, claro, o tratamento do som no espaço. No espaço que não existe. É por isso que é necessário o tal autismo, o tal isolamento.

Quando ouvimos música em nossa casa, nas colunas, não estamos a ouvir música. Estamos a ouvir som que sai de dois sítios algures no espaço, se mistura com todo o ruído ambiente e nos chega completamente deturpado. Perdem-se baixos, perde-se o espaço, perde-se uma série de coisas que queríamos mostrar. A única maneira de compensar isto, nesta música, repito, nesta música que se quer espacializada e acusmática, não em todas as músicas, seria uma sala isolada com oito colunas. Para o som vir de todas as direcções, não ter interferências e nos bombardear. De preferência numa sala às escuras para a nossa atenção não ser perturbada. Afinal queremos ouvir música ou queremos ver e ouvir o ambiente e ter a música como fundo? E é essa a diferença.

Assim, quando peço que se usem fones e se cerrem os olhos, peço o autismo. Peço que nos desliguemos do mundo para entrar noutro mundo. Eu não quero que a minha música se misture com o mundo, quero que ela crie outro mundo. E quero que o ouvinte ao ouvir coisas no seu ouvido direito, que voam para o esquerdo, que rodam, ouça coisas a flutuar, a mexer, a afastarem-se e a aproximarem-se, quero que crie ilusões de um espaço que não existe, de um planalto, uma montanha, que não existe no quarto. De olhos abertos e duas colunas stereo isso não é possível. De fones e olhos fechados isso é provável. Ao retirarmos a luz ao nosso mundo, estamos a deixar o cérebro trabalhar e a criar imagens para o espaço que está a ouvir. Daí a acusmática. Como está autista, não vê, apenas ouve coisas num espaço que criou, também começa a visualizar esse espaço. E a imaginar o que não está cá. E então a magia acontece.

No nosso quarto, apenas com uns fones e olhos fechados, nasce todo um novo mundo. Cores, alturas, larguras, profundidades, cheiros, formas geram-se e quase que as podemos sentir e acreditar nelas. É a meta-estética em todo o seu esplendor. É toda uma atitude diferente, necessária. Toda uma nova forma de ouvir e sentir música. Ouvir e sentir música. Criar uma ilusão. Temos de nos ser capazes de iludir. E não meramente ouvir e sentir ambiente, tendo a música lá ao fundo…

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