Da música Portuguesa votada ao ostracismo

Pressuposto número um: se é que a ideia de país, de uma pátria, de uma comunidade imaginada que nos une a todos faz sentido, então muita coisa vai errada connosco. A ideia de Portugal e de defender o que é Português pode não fazer sentido de todo. É uma questão ideológica, já havia o adágio, «Não sou Ateniense nem Grego, sou um cidadão do mundo», e num mundo cada vez mais global, se calhar as fronteiras, mesmo as culturais, podem não fazer sentido para muita gente. No entanto para outras fazem. Ou deveriam fazer. Mas depois na prática não é bem assim.

Choca ver um país infestado de programação sempre dedicada aos mesmos. Entramos numa Gulbenkian, num São Carlos, num CCB. Quantas obras de compositores Portugueses escutamos? Vamos aos conservatórios, às faculdades, que obras, autores e compositores Portugueses fazem parte dos currículos? Vamos às lojas de discos, quantos estão editados? Quantos passam nas rádios? Quantos as pessoas conhecem, ouvem e compram?

António Pinho Vargas tem arvorado esta bandeira e é altura de se começar a ir atrás. A experiência internacional (viver nos Estados Unidos faz destas coisas à gente), mostra-nos que por muitos recursos que os outros tenham, por muito melhores que sejam em muita coisa, há também muita coisa em que em nada somos inferiores e tudo o resto são mitos e narrativas. E que fazem toda a diferença.

Eu quando regresso ao meu país gostaria de vez em quando de ouvir música do meu país. Sei lá, faz algum sentido para mim. Tenho saudades das minhas referências, do meu arrozinho de tomate malandrinho, das pataniscas, dos sonhos, dos carapaus, de um pastel de Nata, da Torre de Belém… E depois fico confuso porque olho para o CCB e vejo que a Metropolitana está a tocar Handel, Vivaldi, Rameau, Bach no grande auditório. E depois no pequeno António Rosado apresenta-nos as músicas festivas do Lopes Graça. Mal o menos, temos um compositor português, com obras de há cinquenta anos no pequeno auditório… E temos compositores estrangeiros de há quatrocentos no grande. E é isto a nossa oferta de Natal? Se calhar sou só eu que acho bizarra esta programação, e isto é apenas uma gota no oceano.

Simon Frith escreve no seu livro “Performing Rites” a maneira como as narrativas e os programas foram sendo estabelecidos historicamente. Keith Negus vai na mesma onda. Há toda uma certa perversidade na maneira como nos foi vendido Beethoven como um grande génio e o maior compositor indiscutível de todos os tempos. Ou Mozart. Ou Bach. Ou como o repertório Operático se resume a uma centena de Óperas dos séculos 18 e 19, de meia dúzia de compositores do centro da Europa, repetidas à exaustão. A leitura de “Música e Poder” de António Pinho Vargas é uma lufada de ar fresco neste contexto etnomusicológico.

É então muito intrigante que tenhamos os músicos do nosso país a gastarem o seu tempo a tocar compositores mortos há séculos, de paragens longínquas e com experiências de vida culturalmente distintas. E se esqueçam do quem está aqui mesmo ao lado com um desprezo infantil.

«A música Portuguesa é fora de tempo e não é interessante.»

Mas desde quando um Rey Colaço é menos interessante que um Chopin? Porque é que a ópera do Ruy Coelho é inferior à de Verdi? Desde quando a sinfonia do António Victorino de Almeida é uma banalidade comparada com as de Mahler?

Ora escutemos aqui uma coisa: a música, que eu saiba, reflete toda uma experiência de vida. Um sofrimento, como diria a Louise Bourgeois. Não sofrimento no sentido estrito de dor, mas sim um sofrimento de sofrer continuamente experiências na pele, de estar vivo, de existir. E tudo o que nos aflige, faz sorrir, nos traz algo de novo e nos muda, tudo aquilo que sentimos condiciona depois a maneira como transmitimos e criamos. E dessa forma, cada obra, cada acto de criação é interessante. Tem valor por isso mesmo. A música como acto humano tem valor intrínseco por representar o sofrimento, a experiência de vida, cultura e o contexto de um dado autor. É por isso que vamos ver e ouvir música. Para desfrutar de algo novo, do que é que alguém tem a dizer sobre o mundo. Que visão aquele ser humano criou e compôs em som baseado em tudo o que viveu até então, num dado contexto. Dessa maneira não consigo conceber como a música, seja de quem for, é inferior ou menos interessante que a de outrem. Cada música é única, é um universo único repleto de sentido, significado e valor próprio. E isso pode ser apreciado e depois criticado e, porque não, analisado e estudado.

Se a música do António Victorino de Almeida é banal então explique-se porquê. Eu gostaria de saber porque é que os Dó menores dele são inferiores aos do Mahler, a sério gostaria de saber. Ou porque é que a linha melódica da flauta não é imaginativa ou lhe falta profundidade ou a textura é desinteressante. Só essa mera experiência de compreender os valores das pessoas que dizem isso e as suas justificações é, em si mesmo, toda uma experiência cognitiva que de certeza valeria a pena. E uma aula de análise musical baseada nisso, talvez valesse como mil e uma de analisar uma ópera de Mozart pela milésima vez. Ou talvez se descobrisse que afinal de contas, mesmo seguindo critérios e valores “canónicos e estéticos” se percebesse que afinal os nossos compositores em nada são inferiores aos outros…

Valores como “novidade”, “complexidade harmónica”, “foi feita por dinheiro”, “tem apenas dois acordes”, “é previsível”, tudo isto e muito mais pode ser debatido. E no final não haverá quem não me acuse de “um disparate relativista do princípio ao fim”, com base em tudo o que disse, estou a dizer e vou dizer ainda. Seja, neste momento, neste contexto, ninguém me demove desta opinião. Talvez daqui a dois ou três anos tenha outra, se alguém me argumentar e mostrar melhor.

A verdade é que para mim, tudo não passam de humanos a comunicar com humanos os seus sofrimentos e complexidades e contextos. E essas experiências por si só têm o seu valor. E como tal, se somos Portugueses, vivemos em sociedade, deveríamos escutar o que temos a dizer, o que fazemos, gerar dinheiro entre nós e projectarmos a nossa imagem e cultura.

Faz-me confusão cada vez que ligo a televisão e vejo reportagens em música de fundo ouvir Yann Tiersen pela milésima vez. Eu adoro o Yann Tiersen, adoro a banda sonora da Amélie, e todos os Comptines que ele escreveu. Mas eu também escrevo música minimal para piano. E milhares de outras pessoas em Portugal. Porque será que quem produz estas reportagens continua a pagar direitos de autor às banalidades e sofrimentos do Yann Tiersen em vez de pagar dinheiro às banalidades e sofrimentos dos seus pares Portugueses? Quanto mais não seja pela questão económica!…

 Por isso, quando se insurgem contra Rodrigo Leão, B Fachada, a moda do fado em geral, fico incomodado, a sério que fico. Deixem comer os Portugueses. Prefiro mil vezes que dêem dinheiro a estes senhores do que darem à Beyoncé ou à Rihanna. A sério que prefiro.

Sejamos práticos, há nichos e nichos, há mercados e mercados, há narrativas e narrativas. Quem dá dinheiro por um B Fachada se calhar não está minimamente virado para dar por Tantra ou Emmanuel Nunes. Percebo que a discussão se possa colocar nesse nível – ao nível do género ou dos valores da música em si. Mas o meu ponto não é tanto ao nível da música e dos seus valores relativos, ou absolutos, mas sim, da nacionalidade entre músicas de igual ou similar teor/valor percepcionado.

É um argumento de nível económico, social e político. Não é tanto um argumento estético. E nesse prisma, defendo, portanto, que o nosso mercado, para nosso próprio bem, devesse estar literalmente infestado de autores portugueses e das suas obras. Os media devessem promover o António Pinho Vargas, o António Victorino de Almeida, o Tiago Videira. Que os músicos os tocassem nos conservatórios, que as faculdades analisassem e debatessem as suas partituras, as suas técnicas e as suas fragilidades e pontos fortes. E depois os pudessem comparar com referências passadas ou estrangeiras. Que as suas obras estivessem a tocar nas salas de concerto e aparecessem depois nos jornais e na televisão. Que os seus autores fossem entrevistados e convidados para falar do assunto.

Nada tenho contra os músicos de outras paragens, do passado, referências culturais e histórias. Tenho tudo contra um obscurantismo cultural e um filtro mediático deliberado e constante que continua a ignorar ou rebaixar, sem razão aparente, os autores do nosso país e do nosso tempo.

Sem querer fazer saudosismo, ou qualquer apologia política ao fascismo é preciso reconhecer uma coisa boa que a política do espírito trazia: nos anos sessenta a rádio e televisão Portuguesa teve três orquestras – a da emissora nacional, ligeira e a típica. Tínhamos uma escola de cantores. Tínhamos músicos e autores a trabalharem uns com os outros. E a serem difundidos. Foi o tempo do chamado “nacional-cançonetismo” com uma imensa profusão e produção de música. Pode-se debater e discutir, como sempre, a sua qualidade, o seu interesse. A questão é que existiu. E os músicos conseguiam viver disso e entreter os seus contemporâneos e conterrâneos. Tudo isso desapareceu, e mesmo este espólio está todo votado ao esquecimento, na sua grande maioria.

Historicamente e antes da tecnologia sonora, a música era uma arte efémera, local e contextual. As pessoas ouviam o que se fazia naquele momento, naquele sítio. Talvez não fosse mal pensado reaproveitar um pouco desse hábito.

Parece-me, que ao nível da música dita popular, actualmente, e em certos sectores e contextos, as coisas estão a começar a melhorar. Ao nível “erudito” e da academia, há todo um trabalho por fazer. E tem de partir necessariamente de nós.

 

Advertisements

5 thoughts on “Da música Portuguesa votada ao ostracismo

  1. Tony Carreira e derivados?

    A nacionalidade é mesmo “imaginada”… então, em Portugal, que já cruzámos com os cinco continentes, sexual e culturalmente falando.

    O que é a “música portuguesa”? É a cantada em português (inclui o brasileiro, o cabo-verdiano, etc.?) ou a feita por portugueses (“nacionalizados” há quantas gerações)?

    Alargo a crítica além das fronteiras nacionais: para quê gastar o nosso tempo a reproduzir (que vale apenas o instante de uma aprendizagem), quando podemos criar? Fazer de macaquinhos de imitação? Interpretar e babar?

    “Jamais imitei algo de alguém
    E sempre ri de todos os mestres
    Que nunca se riram de si também” (Nietzsche)

  2. Começando por rir do próprio Nietzsche 😉

  3. can you explain more about your post? actually, i cannot understand it fully.

  4. thanks for such an excellent post. it is completely useful. keep this pace.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s